Morte de homem de 32 anos na madrugada deste domingo eleva estatística para 89 assassinatos em 2026, acendendo o debate sobre a escalada da violência urbana.
O que está acontecendo
A cidade de Mossoró, segunda maior maior do Rio Grande do Norte, atingiu uma marca estatística profundamente preocupante na madrugada deste domingo (19). Com a execução a tiros de Gleydson Alves Bezerra, de 32 anos, no bairro Malvinas, o município contabilizou seu 89º homicídio em 2026.
O dado isolado carrega um peso alarmante: em menos de sete meses, o volume de mortes violentas intencionais em Mossoró já superou o total acumulado de todo o ano de 2025, período em que foram registradas 87 mortes dessa natureza. O caso ocorreu por volta de 1h45 na via pública do final do conjunto habitacional. Moradores locais acionaram o 12º Batalhão de Polícia Militar após ouvirem a sequência de disparos de pistola. A área foi isolada para o trabalho de campo da Polícia Científica e da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), e o corpo foi removido para exames periciais no Instituto Técnico-Científico de Perícia (ITEP).
Contexto do problema
A ultrapassagem histórica da meta de letalidade violenta na metade do ano escancara a retomada de uma dinâmica de violência que parecia controlada em Mossoró. O bairro Malvinas, palco do crime recente, e outras áreas periféricas sofrem cronicamente com as consequências do tráfico de entorpecentes e com a disputa territorial entre facções rivais por pontos de escoamento e venda de drogas.
O histórico penal da vítima — que, segundo registros policiais, possuía passagens anteriores pela justiça — é um indicador frequente nas execuções por arma de fogo com características de acerto de contas ou "tribunal do crime". A ousadia dos executores, que utilizam pistolas em vias públicas durante a madrugada, demonstra a sensação de impunidade e o desafio logístico que as forças de segurança enfrentam para cobrir de forma preventiva os pontos críticos da malha urbana mossoroense.
Dados e estatísticas
A aceleração da curva de homicídios quebra a tendência de queda que vinha sendo comemorada pelas autoridades de segurança estaduais no ano passado.
A Virada da Curva: Em 2025, Mossoró encerrou o ano com 87 homicídios, uma redução significativa frente aos picos de violência de anos anteriores. No entanto, o ano de 2026 registrou uma aceleração atípica, alcançando 89 mortes violentas logo no início do segundo semestre.
Armas Curtas na Periferia: O uso de pistolas automáticas reforça o poder de fogo de criminosos comuns no município, indicando o fácil acesso a armamentos e munições de calibres diversos nas rotas de contrabando domésticas.
Foco da DHPP: O número acumulado coloca sobre a Delegacia de Homicídios de Mossoró uma carga extrema de novos inquéritos, pressionando a capacidade analítica e de investigação cartorária da equipe policial.
Impactos para a população
Para o cidadão mossoroense, a quebra de recordes de homicídios deteriora gravemente a sensação de segurança pública. Moradores de bairros populosos como as Malvinas são forçados a adotar "toques de recolher" informais, evitando circular após as 22h e alterando rotinas básicas de trabalho, estudo e lazer devido ao medo de cruzarem com tiroteios ou execuções em andamento.
Esse cenário de instabilidade impacta de maneira direta os pequenos comércios de bairro, lanchonetes e entregadores noturnos, que operam sob alto risco. Além disso, a perda recorrente de jovens na faixa dos 20 a 30 anos para a violência letal desestrutura arranjos familiares inteiros e gera impactos socioeconômicos profundos a longo prazo na previdência e na assistência social local.
O que dizem os especialistas
Analistas em segurança pública e cientistas políticos apontam que a reversão abrupta dos índices de criminalidade de um ano para o outro exige uma auditoria interna urgente nas estratégias de policiamento ostensivo e inteligência.
"Quando uma cidade supera em sete meses o total de mortes de doze meses do ano anterior, há um claro indicativo de que as redes de contenção falharam ou as facções reorganizaram suas linhas de ataque. O patrulhamento convencional precisa ser reforçado com forças de choque móveis e investigações profundas que desarmem a cadeia logística do crime organizado", avalia um especialista em segurança de grandes centros urbanos.
Especialistas ressaltam ainda a necessidade crônica de agilizar as perícias no ITEP para correlacionar o projétil das pistolas utilizadas em execuções de bairros diferentes, mapeando se os executores pertencem a uma mesma célula de matadores de aluguel.
Medidas adotadas pelas autoridades
Diante do cenário crítico exposto pela execução nas Malvinas, o 12º Batalhão da Polícia Militar e o 2º BPM, responsáveis pela segurança de Mossoró, devem intensificar as operações de saturação de área através de barreiras policiais itinerantes nos bairros periféricos de maior vulnerabilidade.
No plano investigativo, a Polícia Civil, através da DHPP de Mossoró, iniciou a coleta de depoimentos de testemunhas e familiares, além de realizar o levantamento de câmeras de videomonitoramento de ruas adjacentes às Malvinas que possam ter registrado a fuga dos criminosos. As autoridades ressaltam que denúncias anônimas e seguras que ajudem a identificar o veículo ou os autores desse homicídio podem ser encaminhadas pelo Disque Denúncia no telefone 181.
Perspectivas para os próximos meses
As perspectivas para o restante de 2026 exigem uma resposta enérgica e imediata da Secretaria de Segurança Pública e da Defesa Social do RN (SESED). Sem um aporte extraordinário de efetivo policial, reestruturação da inteligência investigativa e operações contínuas com forças integradas (incluindo o auxílio de guardas municipais e da Polícia Rodoviária Federal no entorno das rodovias federais que cortam Mossoró), os números de homicídios tendem a fechar o ano com patamares alarmantes.
No âmbito institucional, cresce a cobrança social para que novos policiais aprovados em concursos públicos recentes sejam designados com prioridade para reforçar as delegacias de Mossoró, oxigenando o sistema de combate direto à violência letal no interior do estado.
Conclusão
A trágica marca do 89º homicídio em Mossoró é mais do que uma estatística fria: é um sintoma claro de que a violência urbana precisa ser enfrentada com o máximo de rigor técnico e político. Superar a letalidade de 2025 ainda em julho é um sinal de alerta vermelho que não pode ser ignorado pelo poder público.
Estancar essa escalada de assassinatos exige um compromisso que une a repressão cirúrgica de gangues de rua e o resgate social de jovens expostos ao mundo do crime. Somente por meio do fortalecimento estrutural da polícia e da presença constante de serviços essenciais nas comunidades periféricas, Mossoró poderá retomar o caminho da pacificação e dar aos seus cidadãos o direito constitucional de viver em paz.


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